12.26.2009
CHUVA DE VERÃO
Eles olharam-se com se olha o céu para constatar a chuva. Mas a chuva não chegaria tão cedo assim. A chuva demora molhar, mas quando molha...
Passaram-se semanas, dias, horas e o céu continuava nítido como uma bola rosa-choque no gramado em dia de Sol! Mas o momento oportuno sempre chega e numa bela tarde de vento e folhas esvoaçantes que sem nem sequer perceberem, sentam um ao lado do outro no ônibus. Ela com vestido e sandália, ele com camiseta e bermuda. Ambos dessa vez nem ao menos se olharam. Em meio à correria da cidade quem poderia lembrar de um rosto que se viu uma vez sequer na vida?
Estavam indo fazer vestibular. Enquanto ela pensava na prova, ele ouvia música alta com aqueles fones gigantes de ouvido. Mel estava inquieta, perecia incomodada com o calor. Iran parecia curtir a música alta.
Desceram no mesmo ponto, entraram no mesmo local, fizeram prova na mesma sala. Depois não se viram mais. Algum tempo depois o resultado saiu.
Mel havia passado, Iran também.
É... o destino é um clichê... Adorável clichê!
E com o tempo foram se vendo na faculdade, a freqüência com que se viam foi aumentando e um dia de tanto se esbarrarem nos corredores, rolou um 'oi' meio sem jeito.
A amiga de Mel era do tipo desencanada e vivia pilhando a amiga por causa de garotos.
- Ah Mel, que careta! Você tem que arranjar alguém, sair mais...! Ninguém vive só de estudo!
Aí ficava analisando garoto por garoto, dava nota, piscadelas, conselhos, mas nem se quer conseguia manter um namoro. Era do tipo que trocava mais de namorado do que se troca de roupa.
Muitas vezes Mel e Iran pegavam o mesmo ônibus e certo dia veio uma pergunta:
- Você tem alguma cante pra me emprestar? Acho que esqueci meu penal na facu!
- Ah sim, claro!
Iran lia um livro de poesias, Mel adorava poesias... E como agradecimento pela gentileza, Iran recitou-lhe um poema:
Olhei teus olhos meigos
Acreditei em algo amistoso
Senti pela tua ausência.
E busquei estar próximo.
No final da tarde,
Ouvi tua voz
Perdi-me em teus olhos
Iludi-me em teu pedido
Não entendi os teus feitos.
Encontro-me esperando
Entender os teus atos inconstantes
Seus pensamentos múltiplos
Tua indiferença.
Achego-me a ti em pensamento
Chego a perder rumo do tempo
Teus olhos saltam longe
Estão fugindo de mim...
Será algo que fiz?
Ela agradeceu com um sorriso dourado nos lábios de pura e inconfundível satisfação.
Dias foram se passando, conversas, risadas, coincidências. Ah... Coincidências!
Foi quando sem mais nem menos mel pegou um resfriado e teve que faltar a faculdade por uma semana. Ele ficou cabisbaixo, preocupado só de pensar que não poderia contar com sua agradável companhia. Principalmente no ônibus, pois era o lugar onde tinham mais tempo para conversar.
Melissa ficou uma semana inteira em casa. Nem saiu para comprar um pão na padaria da esquina. Não vez nada. Ficou apenas na base do remédio de gosto detestável e na tristeza e indignação.
- Oras, logo quando está tudo tão bem, vem essa porcaria de virose! E pior... em pleno verão!
Ela pensava também nos dias de aula que estaria perdendo e na companhia agradável que perderia por alguns longos dias. Pura frustração.
A melhora veio, mas ela estava ainda com aparência abatida. Muito remédio, pouco apetite. Chegando na faculdade encontrou a amiga, que indelicada nem se quer perguntou como Mel estava e foi logo falando sobre um garoto que havia conhecido no final de semana. Mel nem ligava muito para as coisas que Nícia falava. Tinha era pena, sabia que um dia Nícia verias as bobagens que cometia. Mel sempre teve muitas filosofias de vida e nunca tivera muitos namorados. Acreditava que namorar é compromisso, não mera diversão, passa-tempo...
Iran viu-lhe ao longe e com um sorriso estampado na cara foi se aproximando, logo perguntando o que tinha acontecido.
- Não, não aconteceu nada! Peguei um resfriadinho bobo, só isso...!
- Nossa você tá melhor?
- Tô sim!
Despediram-se. Tinham que ir para a sala. Surgiu depois mais pergunta no ônibus.
- Você me passa o número do teu telefone? É que eu estava pensando que a gente... mas...
- Passo sim! Toma. Mas liga viu?
Chegando em casa, Mel tomou um demorado banho e foi para o quarto ouvir música. Eis que o telefone toca:
- Oi, tô ligando pra ver se você me passou o número certo.
Ambos riram.
- Quer dizer então que você acha que eu poderia te passar o numero errado?
- Não, brincadeira!
- Ah...! Tô tão cansada...
- Não tô atrapalhando, tô?
-Que isso. Não foi isso que eu quis dizer. É que eu tenho andado tão atarefada. Ainda tenho que estudar!
-Hmmm...! Acho que vou desligar, acabei de lembrar que preciso estudar também. Nos vemos amanhã então!
- Então tá! Obrigado por ligar... Boa Noite!
Iran ficou pensativo. Faziam cerca de quatro meses que eles haviam se conhecido e parecia ser o bastante para a amizade e admiração que um tinha pelo outro. Iran dormiu entre os livros. Estava exausto. Melissa nem se fala!
Se fosse um filme, poderiam dividir a tela da TV: os dois dormindo entre os livros.
A noite rapidamente se transformou em dia. E como a noite é curta quando se está exausto!
Na ida pra faculdade pegaram o mesmo ônibus.
- Veja só!
-Hmmm...! Se eu não lhe conhecesse diria que você está me perseguindo!
Os dois riram e se cumprimentaram. A conversa como sempre foi fluindo, quando de repente um trovão ecoou. Mel pulou de susto.
- Nossa será que vai chover? - perguntou Iran segurando o riso.
- Provavelmente sim! Com esse trovão que acaba de me dar o maior susto!
O tempo foi ficando escuro, foi entrando um vento frio pela janela e a chuva começou a cair. Chuva de verão.
Tiveram que sair do ônibus assim mesmo, sem guarda chuva nem nada.
Mel com a pasta na cabeça, Iran com a mochila. Os dois riam e como riam...
Enquanto ela desviava das poças, ele pisava nelas propositalmente para espirrar água nela. Ao mesmo tempo Mel ria e mandava ele parar, dando-lhe leves tapas no braço. Naquele momento haviam se tornado cúmplices da chuva.
Chegaram na faculdade molhados e na confusão divertida que a chuva havia conseguido causar, despediram-se com um beijo no canto da boca.
Cada um foi para sua sala com um sorriso de orelha a orelha.
Dava para ver a chuva escorrendo na janela. O céu não estava limpo, mas o sorriso dos dois estava nítido como uma bola rosa-choque num gramado verdejante em dia de Sol!
Finalmente a chuva tinha caído. E dessa vez tinha vindo pra molhar!
Lidia Neves.